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Considerada a “Bíblia” hindu, a Bhagavad Gita é o shastra principal que rege as nossas vidas, o modelo arquetípico perfeito para a condução de um ideal de vida elevado.

A versão que eu sigo é de Ramananda Prasad, meu Guru Siksha, que é não sectária, puro deleite para nosso intelecto. Logo em breve vou disponibilizar um curso introdutório dos primeiros capítulos, conforme me guiou Swami Krishnapriyananda. Por hoje, ficamos com a introdução da Gita de Ramananda Prasad.

INTRODUÇÃO

O Gita é uma doutrina sobre a verdade universal. Sua mensagem é universal, sublime e não-sectária, embora ele seja uma parte da trindade escritural do Sanathana Dharma, normalmente conhecido como Hinduísmo. O Gita é muito fácil de ser entendido em qualquer linguagem para uma mente madura. Uma leitura repetida com fé irá revelar todas as idéias sublimes que ele contém. Poucos são os aspectos abstrusos, intercalados aqui e ali, mas estes não possuem influência no problema prático do tema central do Gira. O Gita trata da mais sagrada ciência metafísica. Ele transmite o conhecimento do Ser e responde a duas questões universais: Quem sou eu, e como eu posso conduzir uma vida pacífica e feliz neste mundo de dualidades. Ele é um livro de Yoga, de crescimento moral e espiritual, para a humanidade baseado nos princípios cardeais da religião Hindu.

A mensagem do Gita chegou até a humanidade por causa da má vontade de Arjuna, para cumprir para com o seu dever de guerreiro, uma vez que luta envolve destruição e morte. Não violência ou Ahimsa é o mais fundamental dos princípios do Hinduísmo. Toda a vida, humana ou não humana, são sagradas. Este imortal discurso entre o Senhor Supremo, Krishna, e Seu devoto, Arjuna, ocorreu não num templo, numa floresta reclusa, ou no alto de uma montanha, mas num campo de batalha, nas vésperas da guerra, e está escrito no grande épico Mahaabharata. No Gita, o Senhor Krishna avisa Arjuna para erguer-se e lutar. Isto, provavelmente, gera um mal-entendido do princípio do Ahimsa, se o fundo da guerra do Mahabharata não estiver na mente. Portanto, uma breve descrição histórica está em ordem.

Nos tempos antigos houve um rei com dois filhos, Dhritarashtra e Pandu. O mais velho nasceu cego, portanto, Pandu herdou o reino. Pandu teve cinco filhos. Eles foram chamados de Pandavas. Dhritarashtra teve cem filhos. Eles eram chamados de Kauravas. Duryodhana foi o primogênito dos Kauravas.

Após a morte do rei Pandu, os Pandavas tornaram-se os reis de direito. Duryodhana foi uma pessoa muito ciumenta. Ele também queria o reino. O reino foi dividido em duas metades entre os Pandavas e os Kauravas. Duryodhana não ficou satisfeito com a sua parte do reino. Ele queria o reino inteiro para si próprio. Ele, de modo mal sucedido, planejou vários crimes para matar os Pandavas e pegar o reino deles. Ilegalmente ele apoderou-se do reino inteiro dos Pandavas e recusou-se a devolver mesmo um acre da terra sem a guerra. Toda a mediação feita pelo Senhor Krishna, e pelos outros, falharam. A grande guerra do Mahaabharata foi assim inevitável. Os Pandavas foram participantes que não queriam a guerra. Eles tiveram apenas duas escolhas: lutar pelo seus direitos conforme a matéria da responsabilidade, ou fugir da guerra e aceitar a derrota em nome da paz e da não violência. Arjuna, um dos cinco irmãos Pandavas, encarou o dilema no meio do campo de batalha para lutar ou fugir da guerra pela segurança da paz.

O dilema de Arjuna é, na realidade, um dilema universal. Cada ser humano encara dilemas, grandes ou pequenos, em suas vidas diárias, quando realiza a suas obrigações. O dilema de Arjuna foi o mais importante de todos. Ele tinha que fazer uma escolha entre lutar a guerra e matar seus mais reverenciados gurus, seus mais queridos amigos, parentes próximos, e muitos guerreiros inocentes, ou fugir do campo de batalhas com o objetivo de preservar a paz e a não-violência. Os setecentos versos, inteiros, do Gita tratam de um discurso entre o Senhor Krishna e o confuso Arjuna, no campo de batalhas de Kurukshetra, local próximo a Nova Delhi, na Índia, cerca de 3.100 anos a.n.e. Este discurso foi narrado para o sábio rei Dhritarashtra pelo seu cocheiro Sanjaya, como uma testemunha ocular da guerra.
O objetivo principal do Gita é ajudar as pessoas  lutando na escuridão da ignorância  a cruzarem o oceano da reencarnação (nascimentos e mortes repetidas), para atingirem a costa espiritual da liberação enquanto viventes e atuantes na sociedade.

O ensinamento central do Gita é a obtenção da liberdade ou da alegria, pelo cativeiro da ação da vida de cada um. Sempre se lembrem da glória e da grandeza do criador e da ação eficiente de seus deveres, sem estar apegados ou afetados pelos seus resultados, mesmo que a obrigação demande, de vez em quando, na violência inevitável. Algumas pessoas negligenciam ou desistem de suas responsabilidades na vida pela segurança de uma vida espiritual enquanto outras desculpam-se a si mesmos de uma pratica espiritual porque elas crêem que ela não possuem tempo. A mensagem do Senhor é para purificar todo o processo da vida em si mesma. Não importa o que uma pessoa faz ou pensa deverá realizar pensando na glória e na satisfação do Criador. Nenhum esforço ou custo é necessário para este processo. Faça as suas obrigações como um serviço para o Senhor e humanidade, e veja um único Deus em tudo, num estado de espírito. É  necessário purificar o corpo, a mente e o intelecto, para conquistar um estado de espírito, disciplina pessoal, austeridade, penitência, boa conduta, serviço desapegado, práticas yóguicas, meditação, adoração, oração, rituais, e estudo das escrituras, assim como a companhia de pessoa santas, peregrinação, canto dos santos nomes do Senhor, e  auto-inquirição. Através do intelecto purificado deve-se estudar para abandonar a luxúria, a ira, a avareza, e estabelecer o controle sobre os seis sentidos (audição, tato, visão, gustação, olfato e mente). Deve-se sempre lembrar de que todos os trabalhos são feitos pela energia da natureza, e que ele o ela não são os agentes mas apenas um instrumento. Deve-se aspirar o máximo de excelência em todas as tarefas, mas mantendo-se a equanimidade no sucesso ou no fracasso, no ganho ou na perda, na dor ou no prazer.

A ignorância do conhecimento metafísico é para a humanidade um grande predicamento. Uma escritura, sendo a voz da transcendência, não pode ser traduzida. A linguagem é incapaz e as traduções são defeituosas para claramente transmitir o conhecimento do Absoluto. E nesta tradução, uma tentativa foi feita para manter o estilo mais próximo possível para a poesia original do Sânscrito, e com isso tornar fácil a leitura e o entendimento. Uma tentativa há sido feita para aprimorar a claridade pela adição de palavras ou frases, entre parênteses, na tradução dos versos. Um glossário e índice há sido incluído. Cento e trinta e três (133) versos chaves estão impressos em negrito para a comodidade dos iniciantes.  Nós sugerimos a todos os nossos leitores para refletirem, contemplarem, e agirem de acordo com estes versos. Os principiantes e os ocupados executivos poderão primeiro ler e entender o significado destes versos chaves antes de se aprofundarem no profundo oceano do conhecimento transcendental do Gita.

De acordo com as escrituras, não tem pecado, horrível que seja, que possa comover aquele que lê, pondera e pratica os ensinamentos do Gita; por mais que a água atinja a pétala do lótus (isso porque o lótus está por sobre o lodo; mesmo assim é belo e gracioso). O Senhor em Si mesmo, reside onde o Gita está, é lido, cantado ou ensinado. O Gita é conhecimento Supremo, e o som personificado do Eterno e Absoluto. Aquele que o lê, pondera, e pratica os ensinamentos do Gita com fé e devoção irá obter Moksha (ou Nirvana), pela graça de Deus.

Este livro é dedicado para todos os gurus de quem as bênçãos, graça e ensinamentos são inestimáveis. Ele é oferecido ao grande guru, Senhor Krishna, com amor e devoção. Que o Senhor aceite-o, e abençoe aqueles que repetidamente lerem-no com paz, felicidade, e o verdadeiro conhecimento do Ser.

OM TAT SAT


IGS Internacional comemora 25 anos de fundação! Milhares de Bhagavad-gitas – em 10 línguas – são distribuidos ao redor do mundo. Em linguagem não sectária, a IGS promove o Bhagavad-gita há 25 anos!

O fundador e nosso Acharya Sua Santidade Sri Ramananda Prasad, aos 90 anos de idade, pretente, com muito esforço, juntar devotos e simpatizantes para comemorar o jubileu da International Gita Society no próximo festival de Kubhamela na Índia. Eu queroooo!!!

Visite o site da IGS no ano de seu jubleu:

http://www.gita-society.com

http://www.gita.ddns.com.br (IGS Brasil)

“Mas grandes almas, Ó Arjuna, que possuem as qualidades divinas, conhecem-Me como o imutável – como sendo a causa material e eficiente da criação – e, simplesmente, Me adoram com amor e devoção.”

Bhagavad Gita 9:13

Om namo bhagavate Vasudevaya!

Omm

Puja, ou adoração, trata-se de uma série de rituais realizado nos altares das famílias ou nos templos consagrados, podendo ser sofisticados ou simples. Quando ele é simples adoração de Deus, ele consiste na reunião das pessoas para o canto de musicas devocionais, acompanhado de instrumentos musicais, bem como para escutar sobre a filosofia e discurso dos Puranas, e para distribuir prashada, ou alimento sagrado no final da sessão. Um Kirtana é um misto de cantos, ato de contar histórias e oferecer adoração a deidade com flores e vários tipos de alimentos.

Puja em casa

Puja em casa

Puja, o ritual de adoração é muito mais sacramental quando feito com longos upaharas, ou serviços que são realizados na adoração da deidade. Diversos templos tradicionais decidem o número de upacharas para serem realizados, mas, quase em todos os lugares da Índia há uma certa base que constitui a adoração. Entre eles está Prabodha, ou o despertar da deidade; Snana, a cerimônia de banho da deidade, Avahana, convocação da deidade; Arcaka, ou as boas vindas; Pradaskhina, a circum-ambulação; Naivedya, oferenda de alimento; Aarti, a lâmpada de adoração; Prarthana, a prece e Visarjana, a despedida.

Nestes Upacharas básicos, a deidade é desperta com música e hinos de louvor. O Nirmalya, ou as flores e folhas que foram usadas cedo, são descartadas e o santuário é limpo. A cerimônia de banho é feita para um pequeno ídolo representativo, usando materiais aromáticos como o açafrão e o sândalo. Então a deidade é vestida com paramentos novos, e são decoradas com ornamentos. Depois, a deidade é convidada pelo toque de sinos e pelo sopro do búzio.

A partir de então, a deidade recebe as boas vindas mediante o presente de guirlandas, oferecendo-se um assento e ofertando-se água para lavar Seus pés e para depois aspergir nos rituais.

Puja é uma oferta com a mente concentrada e os sentidos energizados para honrar a Deus. O Puja inclui a recepção e um convite para Deus como sendo nosso convidado de honra em nossa casa. Para realizar a adoração, vários vasos tradicionais são utilizados nas casas e templos Hindus. Eles são feitos de metais preciosos, cobre ou latão. Seus formatos, apesar de ser o mesmo ao redor de toda a Índia, variam de forma marginal, de região para região. Os itens utilizados para a adoração são:

Samai

Samai_2É uma lamparina de óleo amplamente adornada com flores numa tigela. A lamparina possui vários canais onde são colocados os dip, os pavios de algodão embebido em ghee. Há um suporte para sustentar a lamparina para evitar que pingue. Os tipos de Samai diferem de região para região. Dip-Lakshmi, a lâmpada da deusa está associada com a prosperidade.

Arati

é arranjado numa bandeja de metal circular, com cinco lâmpadas de ghi, aratichamadas de nirañjanas, dispostas ao redor e untadas com ghi ou óleo. Quando acesas estas lâmpadas são usadas em movimentos circulares, da esquerda para a direita, diante da deidade enquanto são realizados sons ou cantos devocionais. Aarti é um ato de veneração e amor. Eles são feitos para as crianças nos dias dos seus aniversários, para um casal recém casado, ou como sinal de boas vindas para os convidados, e para os membros da família em ocasiões especiais.

Achamani

PanchPatra_PaliÉ uma pequena colher utilizada para banhar os ícones. Há uma pequena tigela ligada ao seu cabo, usualmente no formato de um capelo de serpentes.

Pañchapatri

É como um pequeno tambor no qual é colocado água ou leite e é usado como achamani. Ele é decorado com vários motivos, em cobre ou prata. Tanto o panchapatri como o achamani podem ser feitos de prata.

Gantha

É uma sineta feita de metal, cobre ou prata, e é usada durante os rituais, ou ghantaenquanto é cantado os aartis (adoração à deidade). Os sinos são considerados sagrados na cultura indiana. Eles são de vários desenhos e estilos, e de diferentes metais, incluindo os de cinco metais, chamados de pañchaloha. Encontram-se muitos sinos na Índia, nos templos e igrejas antigos, e eles tocam pela manhã e ao anoitecer, para celebrar um elo entre o homem e a divindade.

Kalash

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É um pote cheio com um coco e adornado com folhas de manga, sendo uma representação popular Deus.

Tamhan

Tamhan

É um pote cheio com um coco e adornado com folhas de manga, sendo uma representação popular Deus.

Shankh

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É uma grande concha que é adorada como um símbolo de Vishnu. Ela é assoprada em rituais para acalmar Deus.

Pañcamrita

(cinco néctares) é usado nos rituais de banho das deidades, sendo feito de uma mistura em partes iguais de água, leite, iogurte, açúcar, mel e ghi. Frutas frescas e secas, ou alimentos cozidos, são oferecidos para Deus, sendo conhecidos com o nome de Naivedya e quando são distribuídos aos devotos são chamados de Prashada (restos do Senhor). A água sagrada é distribuída como puja, é chamada de tirth.

Phull

Cada deidade tem a sua flor favorita. Nos rituais, as flores são escolhidas pelos suas cores, flagrância e beleza. A folhas de várias árvores e plantas, as quais são consideradas sagradas, são utilizadas. Guirlandas são feitas em inumeráveis desenhos e feitios, decorando as portas das casas ou dos templos nos dias de festival.

Narayani Puja

Narayani Puja

Dhup

Essências aromáticas, varetinhas de incenso ou agarbattis, cânfora, pasta de sândalo e açafrão são extensivamente usados na adoração, e são oferecidos, também, para criar uma atmosfera agradável.

Outros materiais de puja – pós coloridos como o kumkum (cúrcuma vermelho 30 01 Interior do Mercado de Mysoreforte), haldi (turmeric), sindur (ocre), abir e gulal são utilizados para untar as deidades. Arroz sagrado ou akshata, é feito pela mistura de arroz, kumkum e um pouco de água. Cocos, folhas de betel e nozes são oferecidas, tanto para Deus como para honrar convidados em festivais de adoração. Rañgoli é predeterminadamente desenhado num padrão de cores e desenhos para pujas específicos, e sua arte segue princípios matemáticos complexos.

Prasada

Entre os alimentos oferecidos para Deus encontra-se uma grande variedade de frutas secas, açúcar e arroz descascado. Cada um dos alimentos é igualmente aprazível para Deus, como tudo oferecido a divindade origina-se do Seu poder criativo. Todos os alimentos eventualmente são chamados prashada ou bênção. Seguindo-se a isso vem a circum-ambulação, ou caminhada ao redor da deidade com as mãos postas, então se oferecendo alimento e água perfumada suavemente, tudo isso meio a aromas de flores e incenso. O alimento assim oferecido é mais tarde distribuído para os devotos como prashada, e crê-se que neles há grande poder de bênçãos. Aarti, e o acompanhamento de prarthana formam um pedido coletivo para a deidade conferir saúde, riqueza e sabedoria. Os rituais de adoração terminam quando a deidade despede-se pelo canto de mantras.

Várias Adorações na Índia

Arati para Durga

Arati para Durga

Arati no Rio Ganges

Arati no Rio Ganges

Abisheka Hanuman

Abisheka Hanuman

Fonte do artigo: http://www.hinduismo.prg.br


kapila_muniOs ingênuos separam o Sámkhya do Yoga, mas os sábios nunca falam assim. Se um homem se dedica integralmente a um deles, obtém fruto de ambos. A condição atingida pelo Sámkhya também é alcançada pelos homens do Yoga. Aquele que vê o Sámkhya e o Yoga como uma só coisa, este realmente vê.

Bhagavad Gita, V:4-5[1]

A terminologia Sámkhya está descrita no Sámkhya Sutra, também chamado de Sámprachavana, de Kapila Muni, no Sámkhya Karika de Ishvarakrishna, e também pode ser encontrada em grandes textos como o Mahabharata, nas Upanishads Katha e Shvetashvatara. Também num texto chamado Santiparvan, Sámkhya e Yoga significam “os dois conhecimentos eternos”, identificando o primeiro termo como sendo a teoria filosófica e o segundo como prática espiritual. Alguns hinos do Rig Veda (X, 221 e X,129) falam sobre a evolução do universo de forma semelhante àquela encontrada no Sámkhya. A diferença é que no Rig Veda o mundo se forma a partir de duas partes que se complementam, denominadas Purusha e Viráj (a potência criadora):

O Purusha é todo o que hoje é, o que foi e o que será, e dono também do imortal do qual, devido ao               alimento, ele está por cima (…). Viráj nasceu dele e de Viráj nasceu o homem. Assim que nasceu,                foi maior que a Terra por trás e por diante.

Rig Veda, X:90[2]

De acordo com o Sámkhya, toda matéria no universo é constituída por três categorias (Gunas), cuja proporção em que estão distribuídos determina as condições específicas da matéria e dos seres, já que cada um deles tem qualidades específicas. Guna significa “o que ata”, e constitui-se das três forças fundamentais da natureza, que são bases da matéria, da vida e da mente. Diz o Atharva Veda (X:8): “Os homens que possuem a sabedoria sagrada conhecem aquele Ser que reside no lótus de nove portas (corpo humano), revestido pelas três qualidades”. Os três gunas são qualidades básicas da Inteligência Cósmica, que determinam nosso desenvolvimento espiritual.  A teoria sobre os Gunas está exposta na cosmologia Sámkhya, foi adotada pela Ayurveda, a medicina do hinduismo, e está presente também nos Yoga Sutras de Patañjali (a partir de II:18). São eles:

SATTVA: Responsável pela tranqüilidade, meditação, pensamento, conhecimento, clareza, pureza. Tem a cor branca. Quanto maior a presença de sattva, maior é a aproximação da condição da consciência pura. A principal função deste Guna é elevar a consciência.

RAJAS: responsável pela agitação, movimento, atividade. É de cor vermelha. Atua de forma ativa sobre o Guna de tamas para suprimir sattva, ou sobre sattva para suprimir tamas.

TAMAS: responsável pela escuridão, obscuridade, inércia, ausência de atividade e clareza. De cor preta. Tem o processo inverso de sattva, pois sua função é encobrir a consciência.

Dado uma introdução sobre a teoria dos Gunas, podemos falar sobre a Cosmologia Sámkhya. Toda a manifestação cósmica assenta-se numa dualidade fundamental do Purusha, o princípio da Consciência transcendente e Prakriti a substância primordial. Através de Maya Shakti, a energia cósmica criativa, Purusha e Prakriti interagem e formam Mahat, o Ishvara, o “Grande Controlador do Universo”; Mahat existe no ser humano através de um pequeno fragmento, determinado Buddhi, a inteligência cósmica superior, diferente dos níveis de inteligência inferiores, conhecido pelo mesmo nome. Buddhi forma Ahamkara, a individualidade ou o ego, e Ahamkara forma Manas, a mente dos sentidos, que dá origem aos Tanmatras, os cinco elementos em sua forma sutil, que formam os jñanendriyas e karmendriyas, os órgãos de percepção e de ação, respectivamente. Mas vejamos em detalhes como isso acontece.

O Sámkhya prega que tais elementos surgem mediante uma combinação entre os elementos sutis primordiais, os Tanmatras, e os Gunas, Sattva, Rajas e Tamas. Assim, do aspecto Sattva de cada um dos elementos sutis derivam-se os Jñanendriyas, os órgãos de percepção. Do aspecto Sattva de Akasha, ou espaço, deriva-se a capacidade do órgão de percepção da audição; Do aspecto Sattva de Vayu, deriva-se a capacidade do órgão de percepção do tato. Do aspecto Sattva de Tejas, deriva-se a capacidade do órgão de percepção da visão. De Apaha deriva-se a capacidade do paladar e de Prthivi deriva-se o olfato. Do aspecto total de Sattva dos cinco elementos em conjunto deriva-se a mente (Antahkarana), que se divide em manas (mente), buddhi (inteligência), ahamkara (ego) e cittam (memória).

QUADRO 5 – Formação a partir de Sattva

SATTVA

AKASHA

Audição

VAYU

Capacidade das mãos

TEJAS

Visão

APAHA

Paladar

PRTHIVI

Olfato

SATTVA DOS ELEMENTOS EM CONJUNTO

ANTAHKARANA: Buddhi (intelecto), Ahamkara(ego), Manas (mente) e Cittam (memória);

Do aspecto Rajas dos cinco elementos derivam os Karmendriyas, ou órgãos de ação. Do aspecto Rajas de Akasha deriva-se a fala. Do aspecto Rajas de Vayu deriva a capacidade das mãos. De Tejas, a capacidade dos pés. De Apaha, a capacidade do ânus. De Prthivi, a capacidade dos genitais. Do aspecto total de Rajas nos cinco elementos sutis em conjunto deriva-se o Prána, a energia sutil.

QUADRO 6 – Formação a partir de Rajas

RAJAS

AKASHA

Fala

VAYU

Capacidade das mãos

TEJAS

Capacidade dos pés

APAHA

Capacidade do ânus

PRTHIVI

Capacidade dos genitais

RAJAS DOS ELEMENTOS EM CONJUNTO

PRANA – a energia sutil

O aspecto Tamas de cada elemento sutil se divide em duas partes iguais, sendo que a primeira destas partes novamente se divide em duas partes iguais: a primeira delas, cada elemento mantém para si; a segunda novamente é dividida, desta vez em quatro partes, que são cedidas aos outros quatro elementos. Desta maneira, cada elemento tem metade de seu aspecto Tamas e recebe ainda 1/8 de cada um dos outros. Este processo se chama Pancikaranam e é o meio pelo qual os elementos vão se grossificando. Surgem assim os Mahabhutas, os cinco elementos grossificados, presentes em toda manifestação fenomênica, inclusive o corpo humano.

Complementariedade Sámkhya – Yoga

Não há conhecimento como o Sámkhya, não há poder como o Yoga.

Mokshadharma XII:304-2

É comum a complementariedade entra as escolas filofósicas, pois elas versam sobre a prática e a filosofia de determinadas camadas de realidade, como vimos. Entretanto, apresentaremos a complementariedade entre o Sámkhya e o Yoga, que cumpre com os objetivos deste livro. Para melhor entender essa complementação, entendemos o Sámkhya como uma explicação da origem, evolução e estrutura do universo, sua cosmologia e cosmogonia. Os princípios tratados pelo Sámkhya, como vimos no tópico anterior, se manifestam numa ordem que vai dos aspectos mais sutis aos mais grosseiros.

No Yoga Sutra de Patañjali é comum essa idéia de densidade, de aspectos sutis e grosseiros. É recomendado ao praticante que deseja auto-realização que percorra o caminho contrário do Sámkhya, partindo dos aspectos densos para os mais sutis, e este caminho é o Ashtanga Yoga, o Yoga de oito membros.

Sendo assim, quando o Sámkhya explica o surgimento do universo a partir da densificação da energia, está versando também sobre a formação do homem, como afirma a máxima dos Vedas: assim como é no universo, é também no homem. E ora, se o homem deseja beber novamente da fonte que surgiu, deve percorrer o caminho contrário ao Sámkhya, o que é proposto pelo yoga.


[1] Trad. Kupfer, 2001, p.12

[2] Trad. Kupfer, 2001, p.13

Como tantos sabem (e outros nem tanto, rs), faço rituais védicos de purificação. Essa graça me foi concedida pelo Swamiji Krishnapriyananda.

Achei importante abordar este assunto, pois estou sendo cada vez mais solicitada para fazer tais rituais e, acreditem, muita gente fica de cabelo em pé pelo fato de eu ser mulher. Na Índia as mulheres não fazem rituais de Agni Hotra com finalidade de queima de karma ou rituais de instalação de deidades, casamento, funerais, enfim. Mas os rituais domésticos de purificação são exclusivamente femininos.

Conta Swamiji que antes do Rig Veda ser transcrito, as mulheres faziam agnihotra com intenção de diminuição do karma, mas que foi atestado que elas podem absorver este karma que é queimado junto com o fogo sacrificial, pelo poder de acolhimento do seu útero. Assim, mesmo nos agni hotra -s de purificação, devemos ter cautela quando menstruadas, e netsa época não fazemos em nenhuma hipótese tais rituais.

O Agni Hotra de purificação é feito com estrume de vaca, cânfora e alguns algodões embebidos em ghee. Tudo deve ser preparado dias antes e deve ser realizado conforme manda a liturgia hindu. Convém dizer que este ritual é bem mais curto que o Agni Hotra com fins kármicos.

Então abaixo segue algumas fotos de um Agni Hotra realizado no Espaço Anam Cara.

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Om Namah Shivaya!

Om Namah Shivaya!

o Tantra, tal como outros caminhos, é uma doutrina de libertação que carrega em si o objetivo explicito de levar o adepto à Iluminação. Em sua origem, o Tantra foi concebido como um ensinamento para a nova era, especialmente necessária na Kali Yuga, a Era das Trevas, marcada pela decadência moral e espiritual.

A tradição hindu fala de quatro eras ou yugas que compõem a existência do Universo.  Elas diferem quanto ao grau de obediência dos homens ao Sanáthana Dharma (“Lei Eterna”), a lei que determina justiça, retidão, moralidade e inspira e fundamenta todas as religiões, pois é tida como a essência eterna e única de todas elas. Cada uma das eras possui uma determinada escritura (ou shastra) apropriada ao nível ético de sua Humanidade. Dessa forma, a primeira das eras, a Krita Yuga (“Era de Ouro”), foi a época em que viveram santas criaturas, o Sanáthana Dharma era cumprido em sua plenitude e os Vedas era a sua escritura adequada. No Treta Yuga, a retidão já perdera 1/4, e sua escritura foi Smriti, isto é, a sabedoria que fora guardada na memória. O Yuga seguinte chamou-se Dwápara. Nele, do dharma (retidão, dever, justiça) sobrara apenas a metade. A escritura que os seres humanos deveriam então estudar, compreender e aplicar é chamada Purána. E finalmente, o presente Yuga é chamado Kali (treva, escuridão), onde apenas 1/4 da ética ainda resta e o Tantra é eleito como o shastra adequado.  O Mahanirvana Tantra (1:36-42) expõe detalhadamente a Kali Yuga:

Com o progresso pecaminoso da Kali [Yuga], que destrói toda a lei, que é repleta de leis e fenômenos do mal e que faz surgir atividades malignas,

Os Vedas se tornam ineficazes, para não falar que relembram o Smritis. E os muitos Puránas contendo varias histórias e exibindo os muitos meios [para a libertação]

Serão destruídos, ó Senhor. Então o povo se desviará da ação virtuosa

E se tornará habitualmente desenfreado, louco de orgulho, versado em más ações, lascivo, confuso, cruel, rude, vulgar, fraudulento,

Efêmero, maçante, perturbado por doença e pesar, feio, fraco, vil, ligado a comportamento torpe,

Chegado à más companhias, a ladrões do dinheiro alheio. Eles se tornam trapaceiros empenhados em culpar, caluniar e injuriar os outros

E não sentem relutância , pecado ou medo em seduzir a esposa do outro. Eles se tornam destituídos, asquerosos, mendigos destroçados que adoecem da sua vadiagem.

(Trad. FEUERSTEIN, 2001, p. 65)

Uma das influências do Tantra diz respeito à concepção do corpo humano que em muito difere do que até então era tradicional na Índia. Muitas das tradições ascéticas consideravam o corpo como um mero acúmulo de vísceras cuja natureza é corrompida e cujo destino final é morrer e apodrecer. Talvez o exemplo mais claro disso é o que aparece no Agni Purana (LI:15):

O asceta (yati) concebe seu corpo, na melhor das hipóteses, como uma bolha de pele, rodeado de músculos, de tendões e de carne, cheio de urina, fezes e impurezas malcheirosas, habitáculo da doença e do sofrimento, vítima certa da velhice, da tristeza e da morte, mais transitório que uma gota de orvalho numa folha de erva.

(trad. FEUERSTEIN, 2001, p. 461)

No Maitráyaníya Upanishad (1:3) também podemos encontrar uma definição semelhante:

Ó Ser Venerável, o que há de bom no usufruto dos desejos neste corpo malcheiroso e sem substância, num mero conglomerado de ossos, pele, tendões, músculos, medula, carne, sêmen, sangue, muco, lágrimas, fezes, urina, gazes, bile e catarro? O que há de bom no usufruto dos desejos neste corpo que é afligido pelo desejo, pela ira, pela cobiça, pela ilusão, pelo medo, pelo desânimo, pela inveja, pela separação em relação às coisas queridas e a proximidade das não-queridas, pela fome, pela sede, pela velhice, pela morte, pela doença, pela tristeza, pesar e tudo mais?

(trad. FEUERSTEIN, 2006, p. 462)

Entretanto, como observa Eliade (1979), historiador das religiões, “no tantrismo, o corpo humano adquire uma importância que nunca havia tido antes na história espiritual da Índia” (p. 156). Essa nova atitude se expressa sinteticamente no Kularnava Tantra (1.14), outro importante texto tântrico hindu: “dentre os 840.000 tipos de seres corpóreos, o conhecimento da Realidade não pode ser adquirido senão pelo [corpo] humano”. (trad. FEUERSTEIN, 2001, p. 462)

Com o surgimento do Tantra, surge, então, uma nova visão do corpo: a de que é um templo do divino, pois ele permite uma série de investigações, reflexões e experiências que o tornam um instrumento invalorável para a realização espiritual e a iluminação.

O Tantra é um importante marco na história do Yoga, pois trás a luz uma nova concepção do corpo, que antes disso, era considerado um obstáculo para a libertação, fonte da corrupção e inimigo do Espírito. Esta visão de corpo como um monte de coisas substanciais temporais, deu lugar a uma concepção física da morada de Deus, e o preparo do corpo (com o Hatha Yoga) tornou-se um processo alquímico para realizar a perfeição espiritual. O corpo passou a ser visto como um reflexo do macrocosmo, que contém em seu interior todos os segredos do universo. Como diz o Kulanarva Tantra (I:18): “como pode alguém vir a conhecer o propósito da vida sem possuir um corpo humano? Por esta razão, tendo obtido a dádiva de um corpo humano, poderia realizar feitos meritórios”. (trad. FEUERSTEIN, 2006, p. 462)

Rosas (2003) esclarece que ao falar de Tantrismo é importante saber que este concebe duas linhas de pensamento que possuem pontos de semelhança, mas que estão marcados por diferenças importantes. Uma das linhas é o Vama Tantra, que considera o homem sendo Shiva e a mulher como Shakti e prega que somente com a união deliberada de ambos é que se pode chegar à experiência de Iluminação. Já o Dakshina Tantra, a linha de mão direita, considera que tanto homens quanto mulheres são dotados de características femininas e masculinas em sua personalidade, e que a experiência de unidade em seu interior é responsável pela Iluminação.

Este é sempre um ponto de muita discussão e misticismo. Todos os desvios do Yoga e do Ayurveda são atribuídos hoje ao Tantra, por este ser um termo correlacionado com o sexo, a orgia e a promiscuidade. Nada mais errado.

Tantra, tal como o termo yoga, é uma palavra de muitos sentidos, muito embora nenhum deles alude ao que se considera como tantra aqui no ocidente.

No nível mais mundano, denota teia ou urdidura. Deriva do radical tan, no sentido de expandir. Esse radical também forma a palavra tantu (fio ou cordão). Enquanto um fio é alguma coisa extensiva, uma teia sugere expansão. Tantra pode também representar sistema, ritual, doutrina e compêndio. Segundo explicações esotéricas, tantra é o que expande o jñana, que pode significar conhecimento ou sabedoria. De forma geral, considera-se o Tantra como um estilo particular de ensinamentos espirituais que começou a ganhar popularidade no continente indiano cerca de 1.500 anos atrás.

Muito embora se considere o Tantra como um conjunto de técnicas inovadoras, este se considera, desde o inicio, como uma continuação dos antigos ensinamentos dos Vedas. De fato, para alguns, o Tantra é considerado o quinto Veda. Feuerstein (2001), citando o pândita Manoranjan Basu, afirma que os Tantras “são as mais antigas escrituras contemporânea aos Vedas, se não anteriores” (p.29). Feuerstein (2001) também comenta que a obra Narayaniya Tantra afirma que o Tantra deu origem aos Vedas, e não ao contrário (p. 30). Diante desses pontos, o autor diz que o que pode ser afirmado com segurança é que existe uma continuidade inegável entre os Vedas e as revelações tântricas.

A escritura tântrica (Tantra Shastra), de diálogos entre Shiva e sua esposa Parvati, ao longo dos quais importantes informações são divulgadas e verdades profundas são “des-veladas”. Shiva é tido como a Consciência Suprema e sua divina esposa, também denominada Shakti é a energia cósmica criadora. Nos casos onde Shiva é o Guru, o texto é conhecido como Ágama. No caso contrário, quando Shakti é a Guru, constitui o Nigama. Esses textos incluem ensinamentos com os tópicos seguintes: a criação do universo e sua destruição; a adoração; os exercícios espiritualizantes (Yoga); rituais e cerimônias; seis ações de purificação e meditação, todos com finalidade de promover a Libertação da alma individual.

Existem muitos textos tântricos e muitos deles podem ser encontrados já traduzidos pela internet, entretanto seu estudo não é recomendado sem um Guru, um mestre que já tenha estudado estes textos. Talvez a parte que mais nos interessa no Tantra seja a sua sistematização do pranamaya kosha, o corpo de prána ou energia sutil, indispensável para qualquer yogaterapeuta.

Mas este é um assunto para um outro post!

Namastê

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No Hinduísmo, o termo que mais se aproxima de “escola filosófica” é dárshana, que significa literalmente “visão de mundo”. As escolas filosóficas hindus propõem, através do conhecimento (teórico ou prático) que elucidam, oferecer ao praticante uma determinada visão do mundo.

Há especulações de que a pluralidade étnica estava presente desde a Índia Antiga, onde se percebe, através dos estudos arqueológicos e outros, que aquela arcaica civilização já abarcava certos grupos que não tinham os Vedas como visão de mundo. Entretanto, num desenvolvimento posterior, o hinduismo foi enfraquecido por novas correntes heterodoxas, ou seja, que renegavam os Vedas, como o Budismo e o Jainismo. A fim de reafirmar a tradição, surge a classificação dos shad-dárshanas, termo que se aproxima muito do que conhecemos, aqui no ocidente, como escola filosófica. (FEUERSTEIN, 2005)

Os shad-dárshanas, tal como é apresentado hoje pela ortodoxia hindu, são em número de seis, sendo que o Sámkhya, que antes era uma escola filosófica, mais tarde se dividiu em dois sistemas, o Sámkhya e o Yoga. Logo, percebemos aqui que o termo Yoga pode ser utilizado tanto para designar um tipo ou espécie de disciplina espiritual, como também para nomear essa escola filosófica, que foi aceita após a sistematização do conhecimento yogue compilado por Patañjali.

As outras grandes tradições filosóficas são a MímánsáVaisheshika (filosofia natural), Nyáya (lógica) e Vedanta.  Tinoco (2005) resume cada uma delas. Mímánsá “é uma espécie de ciência escolástica sacerdotal que define os cânones ortodoxos da liturgia do Brahmanismo” (p. 48), surgindo nos Brahmanas mais recentes com o significado de discussão acerca das práticas rituais. Esta escola é politeísta e aceita a existência da alma, apontando a necessidade de libertá-la dos egos que foram gerados nas encarnações anteriores. Mímánsá possui duas linhas de pensamento, Uttara-Mímánsá e Purva-Mímánsá, foi fundada por Jaimini, e aplicada ao contexto da filosofia significa “reflexão” ou “exposição sobre o Veda”. (conhecimento dos rituais),

Vaisheshika é uma escola atomística, que defende que toda manifestação é composta por seis categorias eternas que se combinam em diferentes proporções, tornando visível o mundo fenomenal. Fundada por Kanada, prega que só se atinge o Bem Supremo aquele que pode compreender esse conhecimento complexo pelo qual as coisas se combinam e, assim, surgem, mas somente mediante um dharma particular.

Nyáya, por sua vez, é uma escola analítica e não especulativa, que contribui muito para o desenvolvimento do pensamento científico e lógico. Gautama, seu fundador, alega que o Absoluto só se atinge mediante o pensamento lógico.

Vedanta, literalmente, significa “fim do Veda”, alusão à sua localização no final dos textos védicos. O Vedanta possui a essência do conhecimento védico, acredita que tudo é Brahman, e que toda a diversidade é fruto de maya, a ilusão provocada pelos sentidos. Fugindo da especulação em relação à matéria e à evolução, o Vedanta ensina a diferença de Paramátma e átma, o Ser Universal ou Absoluto (Brahman) e a alma individual.

O Sámkhya versa uma exposição teórica a respeito do Universo e também da natureza humana, enumerando e especificando seus elementos. Esta escola foi fundada por Iswarakrishna, provavelmente no século V d.C., mas existem ressonâncias dessa teoria em data anterior, já que o Rig VedaSámkhya. (X, 221 e X, 129) fala sobre a evolução do universo de forma muito semelhante ao

Campbell (1987) expõe os dárshanas, sua literatura principal, a provável data em que foi escrito e o seu fundador.

QUADRO 1 – Informações sobre os shad-dárshanas

ESCOLA

TEXTO(s) BÁSICO (s)

DATA EM QUE FOI ESCRITO

FUNDADOR

Nyáya

Nyáya-Sutra

Séc. VII a.C.

Gautama

Vaisheshika

Vaisheshika Sutra

Séc. II a.C.

Kanada

Mímánsá

Purvamimánsá sutra

Séc. II a V a.C.

Jaimini

Vedanta

Brahma-Sutra, Upanishads e Bhagavad Gita

Séc. VIII a II a.C.

Badarayana

Sámkhya

Sastitantra (desaparecido)

Yoga

Yoga Sutra

Séc. II a.C.

Patañjali

Fonte: ZIMMER, J.C.,1987, p. 67-68

Kupfer (2001) expõe a complementaridade entre as diversas escolas de uma maneira mais compreensível aos olhos ocidentais. Explica que existem duas camadas de realidade: uma visível e outra invisível e os dárshanas, ou escolas filosóficas, são sistemas que estudam essas camadas e suas relações. Deste modo, as escolas práticas (Yoga, Nyáya e Mímánsá) não poderiam ser consideradas dárshanas, uma vez que são métodos pelos quais se atingem os dárshanas (“visão de mundo”).  Este autor defende que é impossível entender um dárshana sem estudar os demais, pois eles tratam de diferentes esferas da realidade, como ilustra abaixo:

QUADRO 2 – Os Dárshanas e a realidade

Vedanta: distingue entre o ser individual e o Ser Universal (mundo visível)

Sámkhya: estuda a diferença entre a matéria e a não matéria

Vaisheshika: observa o mundo da matéria (mundo visível)

Fonte: KUPFER, P. 2001, p. 21

Assim, há uma complementaridade entre as escolas teóricas e práticas. Falaremos apenas sobre o sistema Sámkhya-Yoga, que nos é relevante no presente trabalho. O Sámkhya, para tanto, pode ser entendido como uma explicação sobre a origem, a evolução e a estrutura do Universo, sua cosmogonia e cosmologia. Sendo assim, os princípios tratados no Sámkhya manifestam-se numa ordem que vai dos aspectos mais sutis até os mais densos. Podemos entender o Sámkhya como um sistema filosófico que explica o Universo a partir do processo da grossificação da energia. E o Yoga, por sua vez, se baseia nesta teoria para propor sua prática.  Os Tantras, que são textos filosóficos mais recentes que fundamentam as práticas de Yoga contemporâneas também partem deste principio. Nesta visão, os elementos constituintes do Universo também estão presentes no ser humano e, igualmente, são passiveis de dissolução. Patãnjali  estabeleceu oito membros que visam levar o praticante pelo caminho inverso: do mais denso ao mais sutil, até que se torne possível a confluência com Brahman, a Realidade Suprema.

Os Vedas são a literatura sagrada do Hinduísmo, chamado também de shastras. Os Vedas são em número de 4: Rig Veda, Sama Veda, Atharva Veda e Yajur Veda, frequentemente separado em “Branco” e “Negro”, mas a única diferença entre ambos é que o Yajur Veda Negro contém, no decorrer de seu texto, diversos comentários explicativos, o que dificulta sua leitura.

rigveda
De forma geral, os Vedas transmitem o conhecimento para a auto-realização e versam sobre como libertar-se do sofrimento. A meta de todo o pensamento indiano é atingir a Verdade, que somente é possível através da auto-realização. O reconhecimento desta verdade é que traz a liberdade do ciclo de renascimentos (samsára), que prega que a alma, iludida pela magia (maya) do mundo fenomênico, fica presa a este mundo pelo resultado de suas ações (karma), ficando, então, subordinada à repetidas misérias de nascimento, velhice, doença e morte (samsára). Encarnada, está sujeita ainda há mais três tipos de sofrimentos: os causados pelo próprio corpo; os causados por outras entidades vivas; e aqueles causados pelas forças da natureza (terremotos, tempestades, etc.). O propósito dos Vedas, portanto, é livrar o ser de todo este sofrimento, bem como do ciclo eterno de samsára.

Dos quatro Vedas principais, surgem uma série de textos subsequentes, relacionados com os quatro hinos primários. Assim, para cada ramo védico, existem os Samhitas, Aranyakas, Brahmanas, Upanishads, Sutras e Tantras.

Os Samhitas (‘coleções’) são os textos mais remotos, que constituem hinos dedicados aos deuses védicos, contendo fórmulas e invocações diversas. Remontam de 4.500 a.C. e 2.500 a.C.

Os Brahmanas são textos explicativos sobre rituais e outras práticas, contendo instruções detalhadas, tal como um manual para serem utilizados por sacerdotes. Remontam de 2.500 a.C. e 1.500 a.

Os Aranyakas (tratados da floresta) foram elaborados pelos meditadores das florestas ou foram feitos para serem utilizados por estes. Suas doutrinas enfatizam o Eu, sujeito do sacrifício, e não a execução de rituais como nas obras anteriores. De acordo com os Aranyakas, os deuses estão escondidos na consciência do indivíduo, onde também se oculta a Verdade. Os rituais são interiorizados em forma de sacrifício. Remontam de 2.500 a.C. e 1.500 a.C.

As Upanishads são tratados filosóficos acerca da natureza do Absoluto (Brahman), e sobre a origem, destino e essência do homem. Algumas são chamadas de Vedanta, ‘o fim dos Vedas’, aludindo o aspecto conclusivo dos mesmos. Remontam de 1.500 a.C. e 1.000 a.C.

Os Sutras são textos quase sempre muito pequenos e muito resumidos e que podem versar sobre assuntos diversos como gramática, literatura, astronomia, leis éticas e sociais, dentre outros.  Remontam de 100 a.C. e 500 d.C.

O Mahábhárata é o maior poema épico do mundo, sendo oito vezes maior que a Ilíada e Odisséia juntas. Em seu interior, há o Bhagavad Gita, o conhecido texto sobre Yoga, que narra os momentos anteriores à guerra de Kurukshetra. Igualmente, o Ramayana é um importante poema épico que narra o drama do rei Rama contra o demônio Ravana. O Mahábhárata e o Ramayana são denominados Itihasas. Ambos remontam 1.000 a.C. e 100 a.C.

Os Puranas contém lendas, genealogia dos deuses, ensinamentos mitológicos, práticas espirituais, entre outros. O mais conhecido entre nós é o Bhagavata Purana também conhecido como Srimad Bhagavatam. Data provável de elaboração: 500 d.C. e 1.300 d.C.

Os Tantras são textos recentes, que possuem rituais diversos, abarcam a concepção de uma fisiologia sutil para uma espécie de cartografia da consciência e ensinam como desenvolve-la integralmente, além de possuir elementos éticos e doutrinários. Remontam de 500 d.C. e 1.300 d.C.

Há ainda outra classificação conhecida como Srutis, ‘aquilo que foi revelado’, que compreendem os Samhitas, os Brahmanas, os Aranyakas e as primeiras Upanishads; e o Smritis, ‘aquilo que foi lembrado’, compreendendo os demais textos.

Saber sobre essa classificação védica é importante por dois fatores: o primeiro porque é beber água direto da fonte, todo o conhecimento que chegou até nós veio desses textos; segundo porque o conhecimento desvelado nestes shastras abrem nossos olhos sobre o que é verdadeiro ou não – essencial para um mundo cheio de charlatões.

Lembre-se, se houver alguma dúvida, me escreva.

Namastê.

Pratique Yoga!

O Tridente de Shiva, chamado em sânscrito como Trishula, é a arma de Shiva com a qual Ele destrói a ignorância dos seres humanos. As três pontas representam as três qualidades (Gunas) da matéria: Inércia (Tamas), Movimento (Rajas) e Equilíbrio (Sattva). A busca do praticante começa em buscar Sattva e termina quando transcende todas as qualidades da matéria, quando, então, se atinge Moksha, a Libertação, que é objetivo final de toda prática verdadeiramente hindu.

junho 2017
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Hare Rama Krishna

Hari Om. Após o final da Dvápara Yuga, Sri Nárada Muní dirigiu-se pessoalmente ao Senhor Brahma, na ocasião do início da Kali Yuga -era das trevas - e perguntou-lhe: "óh! Bhagavan (mestre) como poderei na terra ser capaz de atravessar a Kali yuga?"
No que o Senhor Brahma lhe respondeu: "óh Sadhu, as Escrituras Sagradas mantém isso em segredo e oculto, e através do qual você vencerá o Samsára na Kali-Yuga; trata-se simplesmente do ato de reverenciar o nome do Senhor Primordial, Sri Narayana (Sri Krishna) através dos Santos Nomes.

O sábio Nárada mais uma vez perguntou: "Quais são esses nomes?, "no que Sri Brahma (Hyranyagarbha) respondeu-lhe: "Os Santos Nomes do Senhor, conforme dito nos Vedas, são:

Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare
Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare

Estes dezesseis nomes aniquilam os maus efeitos na Kali-Yuga, e não há meio melhores do que Eles, que possam ser vistos nos Srutis. Estes dezesseis nomes destróem a imobilidade do Jíva, rodeando-o com dezesseis raios (kalas). E tal qual a branca luz do sol dissipa as nuvens escuras, atuando como um círculo mágico protetor de todas as entidades vivas existentes, e assim desvelando o Parabrahman (o Absoluto).

Kalishantarana Upanishad

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Ganesha Shatakam Strotam – Mantra Védico para Ganesha

Narada disse:

Inclinando a cabeça, eu saúdo o Senhor removedor dos obstáculos, filho da divina Gauri; seu coração é a morada de todos seus devotos; medito, neste momento, em você, para que possam ser removidos todos os obstáculos ora no meu caminho.

Nomes de Ganesha através dos quais ele deve ser lembrado:

1 – Aquele que tem a tromba curva;

2 – Aquele que tem um dente;

3 – Aquele cujo veículo é um rato escuro;

4 – Aquele que tem a face de elefante;

5 – Aquele que tem um grande abdome;

6 – O grande;

7 – O rei dos obstáculos;

8 – Aquele que tem a cor escura;

9 – Aquele que tem a lua na testa;

10 – O removedor dos obstáculos;

11- O Senhor dos ganas, forças de Shiva;

12 – Aquele cuja forma é de elefante.

Ó Senhor, para aquelas pessoas que recitam os doze nomes três vezes ao dia (ao nascer do sol, ao meio dia e ao pôr-do-sol) que não haja medo de obstáculos e que tudo seja realizado.

Para aquele que deseja conhecimento, o conhecimento é adquirido. Para aquele que deseja riqueza, a riqueza é conquistada. Para aquele que deseja filhos, filhos serão alcançados. Para aquele que deseja libertação, os meios para ela serão encontrados.

Os versos de Ganesha devem se recitados durante seis meses, e o fruto será alcançado. Haverá sucesso no espaço de um ano, não há dúvida quanto a isso.

E tendo sido escrito, aquele que copiar os versos e distribuir a oito brahmanas conseguirá todos os conhecimentos, com as bençãos do Senhor Ganesha.

Assim, completam-se os versos encontrados no Shri Narada Purana ao Senhor Ganesha, para a destruição dos obstáculos.