A Respiração em Terapia

                                                           “O ar tece o Universo”

(Brihadáranyaka Upanishad, III:7.2)

 

“A respiração tece o homem”

(Atharva Veda X:2.13)

 

Respiração… um pouco de história

Em todas as culturas e em toda a história, a respiração foi considerada a mais importante das funções corporais do homem – era a cessão da respiração que determinava o momento da sua morte. O tempo de vida de um homem era medido do primeiro ao último suspiro. Há milênios a respiração é reconhecida como uma ponte entre o corpo e espírito, entre o inconsciente e o consciente. O uso da respiração como método de equilíbrio e cura tem uma longa historia.

De fato, respirar é a função mais básica da vida. E a primeira função de relação com o mundo externo ao útero. Não só reflete nossa condição física e psíquica, como também é um instrumento de organização de nossas relações com a vida.

Diferentes escolas desenvolveram técnicas de respiração nas escolas da China da Índia, Pérsia, Arábia, Egito, Grécia e Roma antigos – ligadas ou não aos seus sistemas de medicina. Atualmente são as escolas de respiração consciente tibetanas, chinesas e indianas que exercem influência marcante no ocidente.

As referências mais antigas sobre sua aplicação terapêutica vem da antiga literatura yoga.  Yoga é um dos caminhos de desenvolvimento psico-espiritual mais antigos que a humanidade já produziu. Existem textos de yoga com instruções sobre respiração que datam de mais de 4.000 anos. Pranayama, o nome genérico dado a essa forma de trabalho respiratório, é uma das principais linhas de yoga.

Pranayama é uma palavra formada da unção de outras duas: yama significa controle, domínio. Prana é a energia vital. Em geral, as pessoas traduzem pranayama como controle da respiração, mas podemos observar que se trata de algo muito maior que isso, pois o prana está presente em tudo o que tem movimento. Segundo algumas pesquisas e teorias recentes, o prana poderia estar vinculado à existência dos íons negativos, importantíssimos para o metabolismo dos organismos vivos. O controle do prana é o controle da energia vital e do seu metabolismo, que inclui a respiração, os batimentos cardíacos, a digestão, a circulação sangüínea, etc. Os principais meios de se absorver o prana são pelas narinas, pelos pulmões, pela língua e pela pele.  Então se diz que pranayama é o controle ou domínio da energia vital, ou bioenergia.

A mudança intencional do padrão de respiração é um meio para purificar os sentidos, tanto física como espiritualmente afim de desenvolver potencialidades. Também pode ser aplicada com objetivos médicos, como a cura, ou para fins espirituais, como meio de chegar a experiências transcendentes, bem como para entrar em contato com outras dimensões da realidade.

 

 

Através da respiração, a energia de sustentação da vida se expande”.

(citado por Elzi & Elzita, Do Yoga à Psicologia)

De acordo com a sistematização do Yoga de Patañjali, os Yoga-Sutras, o pranayama é o quarto passo, ou caminho (anga) para se atingir o estado final do Yoga. Geralmente é realizado com propósitos de purificação dos canais sutis (nadis) e também para acalmar a mente e prepará-la para estágios mais avançados do controle mental.

Uma outra corrente de sabedoria oriental que enfatiza práticas de respiração consciente para obter saúde e longevidade é o Taoismo. Também para o Budismo, a consciência na respiração é uma das instruções mais simples para realizar sua rica variedade de práticas espirituais. O Lama Govinda disse: “o processo da respiração, se profundamente compreendido e experimentado, pode nos ensinar mais que todas as filosofias existentes no planeta”.

As concepções ocidentais modernas sobre o valor terapêutico da respiração consciente foram redimensionadas pela Psicologia Corporal, em especial, Reich e Lowen, que foram os principais psicólogos a utilizarem técnicas respiratórias com objetivos psicoterapeuticos.

Nos estudos psicológicos, é possível notar uma estreita ligação entre respiração e emoção.  Aliás, o olfato é o único sentido cujos receptores ligam-se diretamente ao cérebro, sem precisar da intermediação de um nervo, o que por si só já demonstra a estreita ligação entre mente e fossas nasais. Na nossa vida cotidiana, isso é muito simples de se observar: basta que você perceba seu ritmo respiratório quando está numa situação de tensão e compara-la quando você deita-se na cama, de noite, para dormir. A diferença que se pode ver na velocidade da respiração indica que a expiração tem uma relação mais estreita com o estado emocional do que a inspiração. Também foi observado uma correlação entre o movimento diafragmático e as alterações do estado emocional. O movimento do diafragma é muito sensível a mudanças em situações, sugeridas ou imaginadas, capazes de provocar fortes reações emocionais, e que as variações nesse movimento estão diretamente relacionadas à quantidade de oxidação obtida a cada inspiração. Pesquisas científicas indicam que se o movimento diafragmático aumentar em todas as direções, a capacidade do tórax pode aumentar também, o que vai levar a um conseqüente aumento da capacidade vital. O movimento regular do diafragma estimula todo o plexo solar e estabiliza as funções mentais. Dessa forma, o ciclo respiratório também fica estável, com conseqüente estabilização e aperfeiçoamento da condição física e mental.

Um dos pioneiros na investigação da misteriosa relação existente entre a respiração e as atividades mentais foi Wilhem Wundt (1832 – 1920), na Universidade de Leipzig, Alemanha, onde ele e seus pesquisadores puderam observar e constatar que quando o homem respira profundamente, aparece em sua corrente sangüínea uma substância chamada endorfina, e que esta substância afetava o córtex cerebral e ajuda o homem a esquecer e a eliminar da memória seus receios e pavores, atuando também consistente e eficazmente para controlar e regular vários órgãos. Em conseqüência disso, verificou-se que a endorfina era eficaz na manutenção do conforto físico e mental.

Com as práticas de pranayama, o indivíduo têm alivio em sua ansiedade, e a respiração, tornando-se conscientemente mais profunda, pode penetrar com maior eficiência no sistema celular do corpo. De um modo geral, esse programa de exercícios respiratórios desenvolvido no Oriente visa acelerar o fornecimento de oxigênio e eliminar do sistema o dióxido de carbono.

Seu modelo de respiração profunda destina-se a elevar ao máximo a capacidade vital mediante a expansão e contração dos pulmões. Este método estimula por inteiro o sistema nervoso, e tem por fim facilitar os reflexos do sistema nervoso aos estímulos produzidos pelo processo respiratório. Esses exercícios visam controlar o equilíbrio entre o sistema nervoso simpático e parassimpático, submeter as funções estimuladoras e inibidoras de vários hormônios ao controle estrito do sistema nervoso e sensibilizar os nervos periféricos. Desse modo, as funções fisiológicas das diversas partes do corpo são fortalecidas e os vários sistemas do corpo são restaurados à sua condição normal. Como são estimulados, os nervos periféricos produzem um grande número de neurônios, incentivando o funcionamento de vários órgãos internos e melhora seu poder de resistência às bactérias patológicas.

“Assim como os leões, elefantes e tigres são domados

lenta e cautelosamente, o Prana deve ser controlado

lentamente. De outro modo, isso matará o praticante.”

(Sandilya Upanishad, I)

 

As práticas de pranayama, assim como todas as técnicas de yoga, devem ser ministradas em gradação proporcional às capacidades e limitações de cada indivíduo. Os benefícios são imensos, como já citados, melhora na circulação sangüínea de todo o corpo, facilitando os processos digestivos e de eliminação, reduzindo o acúmulo de toxinas e aumentando a imunidade.

Aspectos energéticos ou prânicos da respiração

A respiração é a maneira mais utilizada para nutrirmos nossos corpos energéticamente. Controlando voluntariamente a respiração, ritmando-a, aprofundando-a, dirigindo-a, polarizando-a, o homem vai obtendo acessos a seus diferentes níveis: psíquico, fisiológico, prânico, podendo integra-los em seu proveito.

 

No processo de Pranayama existem três fases distintas: inspiração, retenção, expiração, sendo que a retenção pode ser feita de duas maneiras distintas, sendo com ou sem ar. Sri Shankara define belamente este processo:

  1. O esvaziamento da mente de toda a ilusão é a verdadeira expiração.
  2. A percepção “Eu sou Divino” é a verdadeira inspiração.
  3. A constante firmeza da mente nesta convicção é a retenção.

Para praticar Pranayama basta ter um par de pulmões, uma coluna ereta e a mente alerta e tranqüila.  Os recursos que necessita são todos seus, e suas potencialidades estão aí, adormecidas.

No contexto terapêutico, muitos exercícios de Pranayama podem e devem ser utilizados para potencializar as diversas técnicas da Transpessoal.