kapila_muniOs ingênuos separam o Sámkhya do Yoga, mas os sábios nunca falam assim. Se um homem se dedica integralmente a um deles, obtém fruto de ambos. A condição atingida pelo Sámkhya também é alcançada pelos homens do Yoga. Aquele que vê o Sámkhya e o Yoga como uma só coisa, este realmente vê.

Bhagavad Gita, V:4-5[1]

A terminologia Sámkhya está descrita no Sámkhya Sutra, também chamado de Sámprachavana, de Kapila Muni, no Sámkhya Karika de Ishvarakrishna, e também pode ser encontrada em grandes textos como o Mahabharata, nas Upanishads Katha e Shvetashvatara. Também num texto chamado Santiparvan, Sámkhya e Yoga significam “os dois conhecimentos eternos”, identificando o primeiro termo como sendo a teoria filosófica e o segundo como prática espiritual. Alguns hinos do Rig Veda (X, 221 e X,129) falam sobre a evolução do universo de forma semelhante àquela encontrada no Sámkhya. A diferença é que no Rig Veda o mundo se forma a partir de duas partes que se complementam, denominadas Purusha e Viráj (a potência criadora):

O Purusha é todo o que hoje é, o que foi e o que será, e dono também do imortal do qual, devido ao               alimento, ele está por cima (…). Viráj nasceu dele e de Viráj nasceu o homem. Assim que nasceu,                foi maior que a Terra por trás e por diante.

Rig Veda, X:90[2]

De acordo com o Sámkhya, toda matéria no universo é constituída por três categorias (Gunas), cuja proporção em que estão distribuídos determina as condições específicas da matéria e dos seres, já que cada um deles tem qualidades específicas. Guna significa “o que ata”, e constitui-se das três forças fundamentais da natureza, que são bases da matéria, da vida e da mente. Diz o Atharva Veda (X:8): “Os homens que possuem a sabedoria sagrada conhecem aquele Ser que reside no lótus de nove portas (corpo humano), revestido pelas três qualidades”. Os três gunas são qualidades básicas da Inteligência Cósmica, que determinam nosso desenvolvimento espiritual.  A teoria sobre os Gunas está exposta na cosmologia Sámkhya, foi adotada pela Ayurveda, a medicina do hinduismo, e está presente também nos Yoga Sutras de Patañjali (a partir de II:18). São eles:

SATTVA: Responsável pela tranqüilidade, meditação, pensamento, conhecimento, clareza, pureza. Tem a cor branca. Quanto maior a presença de sattva, maior é a aproximação da condição da consciência pura. A principal função deste Guna é elevar a consciência.

RAJAS: responsável pela agitação, movimento, atividade. É de cor vermelha. Atua de forma ativa sobre o Guna de tamas para suprimir sattva, ou sobre sattva para suprimir tamas.

TAMAS: responsável pela escuridão, obscuridade, inércia, ausência de atividade e clareza. De cor preta. Tem o processo inverso de sattva, pois sua função é encobrir a consciência.

Dado uma introdução sobre a teoria dos Gunas, podemos falar sobre a Cosmologia Sámkhya. Toda a manifestação cósmica assenta-se numa dualidade fundamental do Purusha, o princípio da Consciência transcendente e Prakriti a substância primordial. Através de Maya Shakti, a energia cósmica criativa, Purusha e Prakriti interagem e formam Mahat, o Ishvara, o “Grande Controlador do Universo”; Mahat existe no ser humano através de um pequeno fragmento, determinado Buddhi, a inteligência cósmica superior, diferente dos níveis de inteligência inferiores, conhecido pelo mesmo nome. Buddhi forma Ahamkara, a individualidade ou o ego, e Ahamkara forma Manas, a mente dos sentidos, que dá origem aos Tanmatras, os cinco elementos em sua forma sutil, que formam os jñanendriyas e karmendriyas, os órgãos de percepção e de ação, respectivamente. Mas vejamos em detalhes como isso acontece.

O Sámkhya prega que tais elementos surgem mediante uma combinação entre os elementos sutis primordiais, os Tanmatras, e os Gunas, Sattva, Rajas e Tamas. Assim, do aspecto Sattva de cada um dos elementos sutis derivam-se os Jñanendriyas, os órgãos de percepção. Do aspecto Sattva de Akasha, ou espaço, deriva-se a capacidade do órgão de percepção da audição; Do aspecto Sattva de Vayu, deriva-se a capacidade do órgão de percepção do tato. Do aspecto Sattva de Tejas, deriva-se a capacidade do órgão de percepção da visão. De Apaha deriva-se a capacidade do paladar e de Prthivi deriva-se o olfato. Do aspecto total de Sattva dos cinco elementos em conjunto deriva-se a mente (Antahkarana), que se divide em manas (mente), buddhi (inteligência), ahamkara (ego) e cittam (memória).

QUADRO 5 – Formação a partir de Sattva

SATTVA

AKASHA

Audição

VAYU

Capacidade das mãos

TEJAS

Visão

APAHA

Paladar

PRTHIVI

Olfato

SATTVA DOS ELEMENTOS EM CONJUNTO

ANTAHKARANA: Buddhi (intelecto), Ahamkara(ego), Manas (mente) e Cittam (memória);

Do aspecto Rajas dos cinco elementos derivam os Karmendriyas, ou órgãos de ação. Do aspecto Rajas de Akasha deriva-se a fala. Do aspecto Rajas de Vayu deriva a capacidade das mãos. De Tejas, a capacidade dos pés. De Apaha, a capacidade do ânus. De Prthivi, a capacidade dos genitais. Do aspecto total de Rajas nos cinco elementos sutis em conjunto deriva-se o Prána, a energia sutil.

QUADRO 6 – Formação a partir de Rajas

RAJAS

AKASHA

Fala

VAYU

Capacidade das mãos

TEJAS

Capacidade dos pés

APAHA

Capacidade do ânus

PRTHIVI

Capacidade dos genitais

RAJAS DOS ELEMENTOS EM CONJUNTO

PRANA – a energia sutil

O aspecto Tamas de cada elemento sutil se divide em duas partes iguais, sendo que a primeira destas partes novamente se divide em duas partes iguais: a primeira delas, cada elemento mantém para si; a segunda novamente é dividida, desta vez em quatro partes, que são cedidas aos outros quatro elementos. Desta maneira, cada elemento tem metade de seu aspecto Tamas e recebe ainda 1/8 de cada um dos outros. Este processo se chama Pancikaranam e é o meio pelo qual os elementos vão se grossificando. Surgem assim os Mahabhutas, os cinco elementos grossificados, presentes em toda manifestação fenomênica, inclusive o corpo humano.

Complementariedade Sámkhya – Yoga

Não há conhecimento como o Sámkhya, não há poder como o Yoga.

Mokshadharma XII:304-2

É comum a complementariedade entra as escolas filofósicas, pois elas versam sobre a prática e a filosofia de determinadas camadas de realidade, como vimos. Entretanto, apresentaremos a complementariedade entre o Sámkhya e o Yoga, que cumpre com os objetivos deste livro. Para melhor entender essa complementação, entendemos o Sámkhya como uma explicação da origem, evolução e estrutura do universo, sua cosmologia e cosmogonia. Os princípios tratados pelo Sámkhya, como vimos no tópico anterior, se manifestam numa ordem que vai dos aspectos mais sutis aos mais grosseiros.

No Yoga Sutra de Patañjali é comum essa idéia de densidade, de aspectos sutis e grosseiros. É recomendado ao praticante que deseja auto-realização que percorra o caminho contrário do Sámkhya, partindo dos aspectos densos para os mais sutis, e este caminho é o Ashtanga Yoga, o Yoga de oito membros.

Sendo assim, quando o Sámkhya explica o surgimento do universo a partir da densificação da energia, está versando também sobre a formação do homem, como afirma a máxima dos Vedas: assim como é no universo, é também no homem. E ora, se o homem deseja beber novamente da fonte que surgiu, deve percorrer o caminho contrário ao Sámkhya, o que é proposto pelo yoga.


[1] Trad. Kupfer, 2001, p.12

[2] Trad. Kupfer, 2001, p.13