Quero dar início a uma série de artigos sobre grandes mestres – em especial aqueles que eu adimiro e/ou que sigo seus ensinamentos. Sim, são os meus mestres, àqueles que eu me ligo espiritualmente seja ao planejar ou para ministrar minhas aulas.

Tenho uma grande amiga que tem verdadeiro pavor da palavra “mestre”. Creio que ela pense que um mestre vai guiar cada passo da sua vida, o que implica um certo “controle”. Claro que se seu objetivo nesta vida for sair da roda do Samsára, ou seja, não encarnar mais neste mundo, ter um mestre que controle cada respiração sua é imprenscindível. Mas não é deste tipo de mestre que estou falando. Outro dia, numa conversa informal, perguntei à esta minha amiga: se você segue os ensinamentos de alguém o que você é? – E ela mesma respondeu: Discípulo! Pois bem. Estes mestres são àqueles que proveram conhecimentos poderosos, os quais eu sigo fielmente, e por isso os considero “meus mestres”.

Decidi começar por Krishnamacharya por dois motivos bem especiais: primeiro, ele é “o cara”, o maior e mais conhecido mestre de hatha yoga dos tempos modernos. Todos os mestres que temos referência de um trabalho bacana aprendeu yoga com Krishnamacharya: Desikachar, Iyengar, Pattabhi Jois, Indra Devi. O outro motivo, bem óbvio, é que estou lendo (pela terceira vez) o livro “Coração do Yoga”, de T.K.V. Desikachar, seu filho.

krishnamacharyacolorProvindo de Mysore, sul da Índia, Krishnamacharya não foi apenas um grande mestre de Yoga, mas um verdadeiro erudito das ciências védicas. Perito em sânscrito, viajou a Mãe Índia de Norte ao Sul, buscando conhecimento dos Dárshanas Yoga, Sámkhya, Mimansa, Vedanta, Nyaya, Vaisheshika. Ao se deparar com o grande poder curativo do Yoga, Krishnamacharya estudou também Ayurveda, o sistema de medicina védico.

É importante dizer que a tradição de Krishnamacharyajá vem de mestres ancestrais, como o famoso Nathamuni pertecente à tradição dos Natha, a origem do Hatha Yoga. Os ancestrais de Krishnamacharya eram tradicionalmente os conselheiros dos governantes. Conta Desikachar que naquela época, os conselheiros eram verdadeiros eruditos das ciências védicas e eram responsáveis por dizer o que era certo ou errado aos governantes.

O Yoga de Krishnamacharya é bem diferente do que hoje encontramos por aí. Krishnamacharya, adepto do Advaita Vedanta e devoto de Sri Krishna, acreditava que as pessoas não deveriam se adaptar ao yoga, mas a prática de Yoga é que deveria ser adaptada para as necessidades de cada pessoa. Não que, com isso, deveria somente dar aulas personalizadas e particulares, mas que deveríamos, isso sim, criar uma atmosfera na aula de Yoga onde cada pessoa pudesse encontrar seu próprio caminho no Yoga.

Sobre a cura com Yoga, Krishnamacharya também considerava a singularidade da pessoa, de acordo com sua constituição, como denota o Ayurveda. Para cada caso, um “remédio” diferente: às vezes um ásana, às vezes um pranayama, às vezes apenas uma oração, e ainda havia os casos em que ele recomendava que a pessoa parasse com sua prática  e logo a cura acontecia.

Então essa é a origem do Yoga que conhecemos: um Yoga curativo, personalizado, que atende às necessidades particulares e individuais, exercendo, assim, seu poder com maestria.

Namastê!

Namastê!