Traçar uma história do Yoga é uma tarefa difícil. Como afirma Campbell (1987), uma reconstrução histórica a partir dos elementos que temos disponíveis (achados arqueológicos e uns poucos textos antigos, sendo que a maioria encontra-se perdido) é em vão, pois constituem apenas hipóteses e deduções de um tempo passado. Prova disso é que ainda hoje surgem tanto novas descobertas acerca da civilização arcaica da Índia, quanto novas teorias sobre do que teria ocorrido naquele tempo. Entretanto, para podermos visualizar o contexto no qual surgiu o Yoga, aderimos à visão cronológica de Feuerstein (2006) que conta na obra “A Tradição do Yoga“, onde conferiu fases ao desenvolvimento da história do Yoga, partindo desde o tempo arcaico até a época moderna. Na obra intitulada “Uma Visão Profunda do Yoga“, este autor apresenta uma classificação histórica do Yoga a partir de seu legado literário, onde distingue quatro categorias que vai do Yoga Arcaico ao Pós-Clássico.  Pode-se aqui contemplar os diversos sentidos que o Yoga foi tomando e absorvendo ao longo do tempo a partir de sua obra sagrada.

O Yoga Arcaico, ou Proto-Yoga, corresponde ao período inicial, cuja tentativa de reconstrução histórica baseou-se nos achados arqueológicos das cidades da antiga civilização do Indo e em elementos encontrados nos hinos dos Vedas. Os objetos encontrados, por si só, não são suficientes para deduzir o tipo de Yoga praticado naquele tempo, mas, se interpretados de acordo com os hinos védicos, nos deparamos com uma civilização de cultura rica em rituais. Feuerstein (2004) diz que “(…) parece provável que o Yoga nasceu do xamanismo do tempo das cavernas. Não sabemos, no entanto, nada sobre os estágios que levaram do xamanismo ao Yoga.” (p.10). A primeira vez que a palavra Yoga aparece é no hino do Rig Veda, onde possuía o sentido de ‘aplicação’ e era um dos recursos utilizados nesses rituais. De acordo com Tinoco (obra disponível na internet[1]), o Proto-Yoga era constituído de técnicas como a meditação em sons mântricos, a concentração da mente e o controle da respiração, em virtude do cantar dos hinos sob regras rigorosas; a invocação dos deuses, posturas físicas (geralmente posições sentadas para que a iluminação fosse possível) e apreensão de uma realidade transcendental (samádhi). As escrituras desta época compreendem os quatro Vedas, bem como os textos Brahmanas e Aranyakas que foram baseados nos quatro hinos. É fato aceitável hoje que o mais antigo dos Vedas, o Rig Veda, foi composto no terceiro ou quarto milênio a.C.

O Yoga Pré-Clássico teve sua fase iniciada pela produção das primeiras Upanishads (por volta de 1.500 a.C.). Em geral, ensinam diversas versões do Sámkhya Yoga, idéia central que já era presente no Rig Veda, mas que foi desenvolvida plenamente nas Upanishads. As Upanishads são textos filosóficos cujo tema central é a natureza mais intima do ser humano, a natureza do Absoluto (Brahman) e o processo de evolução espiritual. Existem Upanishads tardias, datadas entre os séculos X e VII a.C., e Upanishads mais recentes. As que falam diretamente sobre o Yoga foram produzidas d.C. Há uma importante mudança que se destaca aqui em relação ao Yoga Arcaico: a internalização dos rituais que deu procedência a uma espécie de “tecnologia contemplativa” ou meditação. Este é um marco importante do desenvolvimento da concepção de Yoga, pois aqui temos a origem da prática com sentido controle da mente e dos sentidos ou de caminho espiritual. Das Upanishads tardias que citam o termo Yoga temos a Brihad-Aranyaka-, Chandogya- e Taittiriya Upanishads, onde se nota uma certa familiaridade com este sentido de disciplina espiritual, embora não tenha esse mesmo sentido técnico. A obra mais antiga que empregou tal acepção foi a Katha Upanishad, que delineia as principais práticas e técnicas do Yoga.  As Upanishads Svestasvatara e Maitri, mais novas em sua composição, evidenciam o estágio subseqüente na evolução do Yoga.

A Katha Upanishad (1.000 a.C.[2]) narra um diálogo entre Yama, o Deus da Morte, e Nachiketas, um menino brâhmane, onde é exposto o segredo da imortalidade cujo caminho é o Yoga. Vemos nos versos do terceiro capítulo:

Quando os cinco sentidos concentram-se junto com a mente, e quando o intelecto não se movimenta, produzindo divagações, então a pessoa alcança o Supremo Estado, uma condição de concentração serena e penetrante. (III:10)

Esse estado, caracterizado por firme controle dos sentidos é obtido pela prática do Yoga. Quem assim procede torna-se vigilante. (III:11)

(Trad. TINOCO, 1996, p. 165)

Já na Svestasvatara Upanishad (II:8-10) podem ser encontradas instruções diretas sobre a prática do Yoga:

O homem sábio mantém seu corpo firme, com as três partes eretas (cabeça, pescoço e tronco) e com a ajuda da mente, volta seus sentidos para o coração e com a ajuda da balsa de Brahman, atravessa a torrente assustadora do mundo.

O yogin que possui esforço espiritual bem controlado, consegue regular os Pránas; quando eles estão sob controle, o yogin respira pelas narinas. Então, ele, concentrado, mantém fixa sua mente como o controlador da carruagem controla os cavalos rebeldes.

O Yoga deve ser praticado dentro de uma caverna, protegendo-se dos ventos fortes, ou em local puro, plano, sem seixos e fogo, sem perturbações de barulho, seco, não agressivo e prazeroso aos olhos.

(Trad. TINOCO, 1996, p.305-306)

Na Maitri Upanishad (VI:25) vemos claramente a definição de Yoga com os propósitos acima mencionados: “A unificação (estabilização) da respiração, da mente, e dos (órgãos dos) sentidos e o abandono de todas as formas de existência, isto é chamado de Yoga“. (Trad. TINOCO, 2005, p.40)

O principal texto do Yoga Pré-Clássico é o Bhagavad Gita, que está contido no Mahábhárata, o grande épico hindu. Considerado o maior livro de Yoga, a Gita narra o diálogo entre Krishna, o Senhor Supremo, e Arjuna, um guerreiro que enfrenta um dilema diante da batalha de Kurukshetra, onde teve que lutar contra seus próprios parentes e amigos. A Gita expõe quatro “tipos” de Yoga: Sánkhya, o Yoga do discernimento; Karma, o Yoga da ação; Jñana, o Yoga do conhecimento; e Bhakti, o Yoga da devoção. Nesta época também se pode notar uma nova mudança no conceito de Yoga, que já era amplamente utilizado para designar uma disciplina espiritual que incluía diferentes caminhos para a auto-realização. Outros textos importantes contidos no Mahábhárata são o Moksha-Dharma e Anú-Gita, ambos exemplos de textos pré-clássicos.

Também faz parte desta época o épico Ramayana, que trata, sobretudo, os ensinamentos que giram em torno do valor fundamental do dharma, ou seja, da moral e da conduta virtuosa. Apresenta ensinamentos yogues sob o nome de tapas, ou “ascese”.

O Yoga Clássico inicia por volta de II d.C. e fica marcado pela compilação do conhecimento do Yoga por Patañjali em seu Yoga Sutra, marco este que vinculou o Yoga no sistema ortodoxo hindu, passando agora a ser uma escola filosófica (dárshana), cuja prática confere uma ‘visão de mundo’.  Os Sutras de Patañjali falam de um Yoga composto de oito membros, ressaltando as regras morais de conduta e enfatizando as práticas contemplativas. O Yoga é concebido como controle mental, conceito que pode ser claramente visto no sutra I:2 onde diz que “Yoga é a contenção das flutuações da consciência” (Trad. FEUERSTEIN, 2006, p. 276). A obra é um grande tratado sobre a consciência e suas modificações, fala sobre os obstáculos do caminho espiritual e o modo como podemos transpassá-los.

O Yoga Pós-Clássico é considerado uma extensão do Yoga clássico, abrange o período que vai do século II ao XIX d.C., porém caracterizado por uma visão monista. Foram produzidos os textos tântricos, que influenciaram as Upanishads que tratam diretamente sobre o Yoga, sendo que as datas de composição se situam entre os séculos VII e XVI d.C., aproximadamente, e também com a mesma influência, surge o Hatha Yoga e suas escrituras entre os séculos X e XI d.C. Além disso, foram produzidos os Puranas, os escritos vedânticos como o Yoga-Vasishtha e a literatura do bhakti marga, ou caminho devocional.

O Yoga Moderno tem sua fase iniciada por volta de 1.900 d.C. Seus mestres ou Gurus são Sri Aurobindo, do Yoga Integral, Sri Yukteswar Giri, mestre espiritual de Paramahansa Yogananda, fundador da Self Realization Fellowship em Los Angeles e difusor do Laya Yoga; Sri Ramana Mahashi (1879-1950), o mestre da montanha de Arunachala que recomendava meditar na idéia “Quem sou Eu?”; B.K.S Iyengar, mestre do Hatha Yoga; Swami Muktananda (1908-1983), siddha yogin discípulo de Swami Nytiananda e adepto do Kundalini Yoga e vários outros.


[1] Tinoco, C. A. História do Yoga, http://www.tinoco.cjb.net, 25 de outubro de 2007, 15:33

[2] Segundo a cronologia de Feuerstein, 2006.