É importante dizer que a história do hinduísmo é motivo de muitas controvérsias e há mais de cem anos que os ocidentais e orientais brigam por essa questão. São duas teorias divergentes entre si e que são fundamentais para a contextualização do Hinduísmo. Antes, vale lembrar que muitos escritores ocidentais já chamaram a atenção para o caráter atemporal de tudo o que se refere à cultura indiana até o século XIX. Todas as datas estipuladas são meras aproximações, pois os historiógrafos hindus nunca se preocuparam em registrar as datas, e, além disso, havia uma tendência muito grande de se fundir fatos históricos com mitologias, simbolismos e ideologias.

Voltando à questão das teorias acerca da história da Índia, existem estimativas que a mais arcaica civilização da Índia teria existido por volta do ano 6.000 a.C., e contava com uma área com cerca de 3 milhões de quilômetros quadrados. Essa civilização recebeu vários nomes, no entanto, ela é mais conhecida como Indu, ou Indu-Saraswatí, em referência a dois rios, o Indus (no atual Paquistão, está vivo ainda hoje) e o Saraswatí, que hoje está seco. De um modo geral, alguns ocidentais afirmam que essa civilização Indu-Saraswatí teria sido aniquilada por volta do ano 2.000 a.C., por povos arianos, que teriam invadido a Índia pelo noroeste. Então, depois de um tempo de escuridão e ostracismo, essa região voltou a ser habitada por novos invasores, desta vez vindos da Grécia e comandados por Alexandre Magno. Esta é um resumo da conhecida teoria da invasão ariana, defendida especialmente por Max Müller. Como observa Frawley (2004), ainda hoje a maioria dos indianos acredita nessa história, e esta visão ainda hoje permanecem nos livros escolares da Índia. “Ignorou-se que nunca houve registros de tal evento nos registros indianos antigos, no norte ou no sul. Desconsiderou-se que esta teoria nunca conseguiu ser provada” (FRAWLEY, 2004, p.24)

Na verdade, muitos autores tentaram comprovar essa teoria. Zimmer (1986) elucida as muitas evidências que comprovam a invasão, mas todas são contestadas nos dias atuais por novas descobertas que apontaram novas deduções. De acordo com variados autores (Pedro Kupfer, Georg Feuerstein, Subash Kak), a invasão ariana não aconteceu e as recentes descobertas arqueológicas comprovam isso. Além disso, há vários outros questionamentos que entram em voga, como aponta Tinoco (2005): tanto os descendentes dos supostos invasores arianos quanto o povo autóctone não têm memória alguma sobre essa invasão; em muitos sítios arqueológicos fica evidente a continuidade cultural dos artefatos da cultura hindu, bem como resquícios do que parece ser altares de fogo, indicando que não houve uma devastação cultural, como antes se previa; o Rig Veda, que foi frequentemente utilizado por Campbell (1987) para comprovar a invasão ariana, não se refere a uma cidade natal de onde teriam partido os invasores nômades, e cuidadosos estudos posteriores demonstraram que a batalha descrita foi travada entre povos de uma mesma cultura.

Feuerstein (2004) observa que até recentemente muitos pesquisadores datavam os hinos mais antigos do Rig Veda por volta de 1.500 a.C., no entanto, através de uma análise profunda das muitas evidências disponíveis, cada vez mais estudiosos aceitam que tais hinos pertencem ao terceiro ou até o quarto milênio a.C. Este autor coloca duas questões muito importantes que entram em voga a partir desta afirmação: 1, a consideração que não houve a invasão ariana coloca o Rig Veda pelo menos contemporâneo dos textos piramidais do Egito, tidos como a mais antiga literatura da humanidade; 2, torna o Rig Veda próximo cronologicamente com a Civilização do Vale do Indo. Isso mostra que se torna aceitável o fato de que o povo védico do qual fala o Rig Veda sejam o mesmo que também habitaram as margens do rio Indu e de seus afluentes. Aparentemente há uma continuidade cultural entre o hinduismo moderno e a cultura da antiga civilização Indu-Saraswatí.

Frawley (2004) cita o artigo acadêmico de James Schaffer, um arqueólogo da Universidade de Case Western, que argumenta que houve o desenvolvimento de uma civilização indígena na Índia até 6.000 a.C. e que a civilização Indu-Saraswatí chegou ao fim não por causa de invasores externos, mas devido às mudanças ambientais. A teoria da invasão ariana surgiu de uma visão eurocentrista e não possui, hoje, qualquer sustentação.

Esta consideração contemporânea também faz recuar em muito as datas prováveis de elaboração dos textos védicos, como veremos adiante.

Deixando de lado a discussão da provável data do mais antigo Veda, temos que considerar que, antes mesmo de ser transcrito, os Vedas mantiveram-se vivos por uma tradição oral de pelo menos quatro mil anos, como afirma Feuerstein (2004). Portanto, o Yoga, tal como o conhecemos hoje, é um produto que está em desenvolvimento há, pelo menos, cinco mil anos.